Spread the love

Agora é mesmo oficial: os dois diretores das principais Vogues Europeias, Emmanuelle Alt, da Vogue Paris, e Emanuele Farneti, da Vogue Itália, deixam os cargos máximos das publicações. Eles sucedem as saídas de Angelica Cheung, da Vogue China (em 2020), e de Priya Tanna, da Vogue Índia (2021).

Emmanuelle Alt começou na Vogue Paris no ano 2000, mas só assumiu como diretora em 2011. À época, foi muito comentado que a escolha do seu nome representava um possível contraponto à abordagem de Carine Roitfeld, que deixava o cargo – Alt, mais formal, conservadora, clássica, e Roitfeld mais transgressora, sexy, colorida. Também à época, especulou-se que ambas não se relacionavam bem nos bastidores, e que Jonathan Newhouse, CEO da Condé Nast International, teria dito que o melhor a ser feito era demitir Roitfeld. O estilo discreto, elegante e minimalista esteve com Alt durante os exatos dez anos em que esteve à frente da Vogue Francesa, seja na maneira de conduzir o veículo, seja como figura pública, e deixa legado previsto: pouco criativo, um tanto apático e muito comercial – a julgar pela própria capa de outubro que celebra 100 anos da publicação, a última que assina como diretora.

Emanuele Farneti, ao contrário de Alt que já conhecia bem a Vogue, chegou na edição italiana em 2017 com uma missão impossível: substituir Franca Sozzani sem a pressão de oferecer algo no mínimo tão brilhante como a diretora o fez por quase trinta anos, até sua lamentável morte, em 2016. Basta dizer que o trabalho de Sozzani posicionou a Vogue Itália como uma das edições da Vogue mais relevantes do mundo (se não a mais) diante da complexa e bem elaborada comunicação imagética e de moda. Farneti era diretor da GQ Itália e trabalhava para a Condé Nast desde 1999 e, ao longo da carreira, atuou predominantemente em segmentos masculinos. Deixa um legado confuso, em que visivelmente tentou acompanhar o raciocínio de Sozzani, vezes com, vezes sem tanto sucesso, e muito pouco conseguiu imprimir sua própria assinatura. De algum modo, o comunicado oficial a respeito de seu desligamento ratifica essa visão quando a onipresença de Sozzani revelou-se expressamente: “tem sido uma honra continuar a tradição da inovação, da quebra de barreiras, e do desenvolvimento de imagens, trabalhado em uma perspectiva única e italiana que foi estabelecida pela minha antecessora, Franca“, afirma Farneti, que deixa a Vogue Itália com a atual edição de setembro.

 O presente e o futuro da Vogue no Brasil e no mundo

Algumas análises apontam que haverá uma concentração maior das direções e não uma substituição de diretores propriamente, diferente da Vogue China e da Vogue Índia, ambas já com novas diretoras: Margaret Zhang e Meghan Kapoor, respectivamente. Vale lembrar que Anna Wintour foi nomeada, em dezembro, chefe de conteúdo internacional do grupo – ela também se tornou diretora-editorial global da Vogue, e segue como diretora da Vogue América por mais de trinta anos. Outra informação importante é a de que Edward Enninful, diretor da Vogue Britância, foi nomeado também em dezembro como diretor editorial europeu da Vogue, indicando maior centralização.

No Brasil, temos Paula Merlo no comando da Vogue Brasileira desde 2018. Quando a entrevistei no Moda Para Todos, em abril, afirmei que ela tinha uma personalidade muito alegre e jovial, o que traz uma contribuição cheia de frescor ao título.

Ednaldo, antes de tudo eu queria te agradecer, agradecer o convite, e agradecer o seu entusiasmo para com a moda e para com a Vogue. Para mim, é uma honra falar sobre a Vogue. Sobre a minha contribuição, eu sou assim. Isso é um fato, né? As pessoas confundem alto astral às vezes com uma certa imaturidade e não tem nada a ver. Eu sou uma pessoa leve, eu fiz essa escolha de ser leve na minha vida (…). A Vogue é uma plataforma de moda, e moda é política, claro, é uma maneira de a gente mostrar quem a gente é, mas a moda é sonho também (…)”, comentou Paula Merlo.

Também em nosso país, Paula Mageste foi anunciada como a nova CEO do grupo em 2020 diante de uma longa carreira cheia de momentos marcantes, inclusive o início da Condé Nast no Brasil. Quando a entrevistei no Moda Para Todos, em março, ela comentou:

“A Globo Condé Nast surgiu há dez anos. Ela é fruto de uma joint venture da Editora Globo com a Condé Nast International. E quando ela surgiu eu trabalhava na Editora Globo, eu participei do processo de nascimento dessa empresa. Fiz, inclusive, o primeiro projeto da revista Glamour, o primeiro projeto da GQ, de lançamento no Brasil. Porque quando a Vogue e a Casa Vogue existiam pela Carta Editorial, a GQ e a Glamour não existiam ainda.”

A responsabilidade de dialogar com valores

Embora cada país tenha seu próprio espírito, a Vogue, como uma das principais marcas do mercado editorial de moda no mundo, tem um importante papel social relacionado ao que propõe em sua comunicação imagética, de moda, e textual. Por isso, é essencial que seus diretores estejam alinhados aos “Valores Vogue”, um anúncio global feito em 2019 em que as mais de vinte edições da Vogue estariam comprometidas a seguir a partir de 2020.

“Como líder mundial em moda, a Vogue tem a capacidade de mover, influenciar e inspirar e, com isso, a responsabilidade de liderar os assuntos mais importantes. Durante mais de um século, os títulos da Condé Nast impulsionaram a conversa cultural e as mudanças significativas em todo o mundo. Esse novo compromisso realça o que podemos realizar quando trabalhamos juntos para alavancar o nosso alcance global”, disse, à época do anúncio, Roger Lynch, diretor executivo da Condé Nast.

Estariam as mudanças de direção refletindo tais valores em termos de direcionamento e propositura de conteúdo? Ou apenas a questões estruturais para assegurar a rentabilidade do grupo?

“As pessoas respondem bem àqueles que têm certeza do que querem. O que as pessoas mais odeiam é a indecisão. Mesmo que eu esteja totalmente inseguro, vou fingir que sei exatamente do que estou falando e tomar uma decisão”, a afirmação de Anna Wintour há alguns anos, destacada em matéria da Glamour Britânica, ilustra ironicamente muito bem o momento.

+ posts

Formado em Direito, Ednaldo da Fonseca atua como jornalista cultural e community manager. Seja como colaborador freelancer de veículos como ELLE Brasil, no Clubhouse em seu club Moda Para Todos, ou na sua série de lives Let’s Talk no Instagram, entrevista personalidades como Carla Bruni, Paula Merlo, Jairo Goldflus, Paula Mageste e Jan Welters.