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Entre os dias 5 e 8 de julho aconteceu a Semana de Alta-Costura temporada Outono 2021 com um line-up composto por 33 maisons. Inacreditavelmente, algumas marcas abordaram uma alta-costura sustentável, através do uso de técnicas de Upcycling e Zero Waste, além da ressignificação de peças de coleções anteriores.

Não foi a primeira vez que a alta-costura dialogou com um processo mais sustentável. Na temporada de 2014, Ronald Van Der Kamp abordou pela primeira vez a sustentabilidade em sua coleção e usou retalhos para criar uma coleção de alta-costura sustentável.

Em 2016, os designers da Maison Viktor & Rolf desenvolveram uma coleção utilizando o estoque de retalhos e velhas amostras em tecido. Isso enaltece a ideia de que crises e a escassez de materiais provocam a inovação e a criatividade.

Em 2020, Maison Margiela de John Galliano exibiu sua maestria na execução, recuperando clássicos do guarda-roupa e retalhos. O estilista e sua equipe foram em busca de materiais em brechós para dar um novo significado às peças.

Lembrando que o fundador da marca homônima, Martin Margiela, o rei do desconstrutivismo, já desmontava peças de roupas para depois reconstruí-las e aumentar suas proporções, deixando à mostra forros, costuras e bainhas.

Na temporada deste ano, mesmo não fazendo parte do calendário oficial da alta-costura, Olivier Saillard mostrou que não se faz Couture apenas com tecidos novos e caríssimos.

O historiador e ex-curador do Palais Galliera, que já trabalhou com Cristóbal Balenciaga e que atualmente está na Fondation Azzedine Alaïa, faz suas peças de alta-costura sustentável com roupas baratas encontradas na internet.

Suas coleções são construídas reaproveitando peças de roupa do Fast-fashion. Na coleção de 2017 utilizou camisetas de algodão tamanho extra grandes, com custo de 5 dólares, que foram ressignificadas com acabamentos de alta-costura, provando que Saillard não é um entusiasta na moda e sim um visionário.

Nesta temporada, ele arrematou uma coleção de ternos masculinos da varejista de atacado Kiabi, produto confeccionado em fibra sintética e parado no Deadstock da empresa.

O custo das peças foi em torno de 25 a 45 dólares e tinham o tamanho 8XL (tamanho 70), com a ajuda da ex-costureira da casa de alta-costura da lendária Madame Grès, Martine Lenoir, criou uma coleção digna de ser chamada de Haute Couture.

O que é exatamente a alta-costura?

A alta-costura é um exclusivo serviço de ajuste e costura à mão para clientes selecionados, realizado por artesões rigorosamente treinados.

É um setor ligado ao uso de tecidos finos e caros, como chiffon e tule de seda, com detalhes em penas, rendas, cristais e bordados minuciosos.

A sua origem é atribuída a Charles Frederick Worth, que, em 1858, fundou a primeira Maison no número 7, na Rue de la Paix em Paris. Não podemos nos esquecer de citar Rose Bertin, a Ministra da Moda de Maria Antonieta, que teria dado os primeiros passos em Versailles.

No dia 23 de janeiro de 1945, a denominação Haute Couture passou a ser uma patente francesa, para ser preciso, parisiense.

Para serem consideradas casas de alta-costura, as empresas devem ser aprovadas anualmente por uma comissão dedicada da Chambre Syndicale de la Couture.

Atualmente, as coleções de alta-costura são apresentadas semestralmente, nos meses de janeiro e julho.

Por que a alta-costura é tão valorizada?

A alta-costura é um resgate do passado e a ultravalorização de técnicas manuais da tradição francesa de costura, com abordagens atuais, ou seja, é a relação entre a tradição e a contemporaneidade.

Antes da Revolução Industrial, as roupas eram confeccionadas sob demanda e especialmente para o corpo do cliente. Portanto, não havia desperdício e produção em massa de roupas.

A moda era inspirada nas mulheres da alta sociedade das capitais e as modistas faziam o papel de reproduzir o estilo em tecidos de baixo custo.

Mais à frente, as próprias modistas começaram a criar as próprias coleções, mas o processo ainda seguia a confecção a pedido do cliente.

Nessa época as “tendências” eram popularizadas através das Pandoras, bonecas que viajavam atraves das cidades e vestiam modelos de roupa em tamanho reduzido, foram as primeiras modelos ou revistas de moda daquele tempo.

Depois surgiu o Prêt-à-porter, que é a forma de consumo mais próxima dos dias atuais, em que compramos a roupa pronta, em um tamanho já definido como padrão. Um modelo de produção que gera muito desperdício de material e descarta milhares de toneladas de roupas no meio ambiente anualmente.

Portanto, o trabalho da alta-costura, mesmo quando não utiliza materiais sustentáveis, sempre teve um impacto muito menos negativo para o planeta que a indústria da moda atual.

O retorno à produção sob demanda seria talvez a solução mais rápida para que a moda deixasse a lista das indústrias mais poluentes. Não seria um retrocesso, mas uma readequação consciente dos danos causados ao planeta.

Antigamente eram produzidas roupas de alta qualidade e longevidade. Uma coleção de alta-costura é única e meticulosamente feita à mão, que, analogamente, existirá por décadas e um dia será exposto em um museu.

O importante na moda não é a matéria-prima em si, mas o trabalho envolvido na construção e longevidade da roupa.

A Semana de Alta-Costura de 2021 foi sustentável?

O retorno dos desfiles presenciais teve inúmeras consequências, pensando nisso, pioneiramente, Paris irá medir e quantificar os impactos ambientais ocasionados pela realização dos eventos nas temporadas de moda do pais.

Milhares de pessoas se deslocaram para a cidade, incluindo a logística dos profissionais, roupas e infraestrutura de preparação do desfiles. A energia elétrica consumida durante o evento foi imensa. Os materiais utilizados na construção de cenários, ambientes e salas são geralmente descartados após o encerramento, produzindo muito lixo e resíduos em um curso espaço de tempo.

Foram apresentadas ferramentas pela Fédération de la Haute Couture et de la Mode às maisons para que sejam medidos e compensados posteriormente, os danos ao meio ambiente. O modelo testado nessa temporada entrará em vigor oficialmente em setembro deste ano.

São levados em conta 120 indicadores-chaves para quantificar o impacto ambiental, do casting até as mídias sociais. As marcas terão a possibilidade de divulgar esses dados aos consumidores e serem transparentes quanto ao seu impacto socioambiental.

Saiba quais as práticas sustentáveis na última semana de moda de alta-costura de Paris:

Ronald van der Kamp

A Maison utilizou 100% de materiais sustentáveis e roupas de coleções antigas. Tecidos do estoque, amostras do arquivo e de descarte de fábricas.

Fendi

Desde a temporada passada, Kim Jones passou a aplicar técnicas de mosaico e bordado a partir de pele e couro reciclados.

Armani

Incluíram peças da coleção anterior, além de terem abolido a utilização pele de animais. Foram incorporados materiais sustentáveis e 100% recicláveis em suas coleções de acessórios, dessa forma reduzindo o impacto ambiental.

Iris Van Herpen

Em colaboração com a Parley for the Oceans, utilizou na coleção um tecido fabricado com plástico retirado do oceano. O material foi feito de resíduos reciclados, provenientes de cerca de oito milhões de toneladas de plásticos retirados do oceano. A Parley for the Oceans coleta resíduos de plástico das costas e oceanos, que são triturados e transformados em fibra têxtil.

Schiaparelli

Ressignificou o jeans vintage comprado em um brechó local e apresentou as peças com bordados da Lesage, um ateliê de Paris especializado em alta-costura.

Viktor & Rolf

Desenvolveu toda a coleção reutilizando materiais como retalhos de poliéster, sobras de tecido, pele falsa e biodegradável, além da parceria na utilização de cristais do deadstock da Swarovski.

Balenciaga

Apresentou jeans feito com denim japonês fabricado em teares antigos, além da substituição de peles e penas por alternativas sintéticas, bordados com linha de seda, representando estes materiais tão presentes nas coleções de alta-costura.

Jean Paul Gaultier

A coleção foi uma colaboração com a marca Sacai, que incluiu um jeans desconstruído feito com tecidos reciclados.

Maison Margiela

O Upcycling está no DNA da Maison e, mesmo antes da sustentabilidade estar em pauta, o belga já utilizava materiais recicláveis em suas criações, como roupas feitas a partir de sacos de lixo e acessórios confeccionados com o couro dos assentos de carro.

Valentino

O Vestido vermelho tomara que caia foi feito com fragmentos do clássico tecido “Vermelho Valentino” que estavam no estoque do atelier de alta-costura da maison.

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Designer de Comunicação e Moda. Mestrando em Design e Marketing de Produto Têxtil e Especialista em Sustentabilidade e Economia Circular.

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Bacharela em Direito e apaixonada por moda. Criadora do Passarelando. Escrevo sobre moda, história e arte, além de tendências, dicas, looks de Tapete Vermelho, inspirações para looks do dia e o melhor das Semanas de Moda Nacionais e Internacionais.