Spread the love

No dia 5 de julho foi dada a largada na tão esperada Semana de Alta-Costura (Haute Couture Week). O evento conta com duas edições, sendo respectivamente em janeiro (primavera – verão) e julho (outono – inverno). 

As novas coleções de inverno foram apresentadas tanto em formato digital, quanto presencial. Ao todo foram 33 apresentações, e não parou por aí, tivemos o retorno de Balenciaga após 53 anos e a estreia de Pieter Mulier na maison Alaïa.

O encerramento da semana estava programado para o dia 8 julho, entretanto, devido às condições climáticas que impediram a apresentação da Pyer Moss, a Fédération de la Haute Couture et de la Mode decidiu prorrogar o evento até o dia 10 de julho.

O início de tudo

Voltando um pouco no tempo, lá em meados dos século XIX, um senhor britânico chamado Charles Frederick Worth – considerado o pai da Alta-Costura – surpreendeu a sociedade parisiense com sua criatividade e expressão através de belíssimas peças feitas sob medida, que eram consideradas artesanato de luxo. Ele se baseava na singularidade de cada silhueta e promovia desfiles em seu ateliê, junto de sua esposa Marie Worth, que demonstrava as peças em seu corpo para as clientes. Em 1858, Worth inaugurou a primeira Couture House no número 7 da rua la Paix, em Paris e realizou o primeiro desfile utilizando modelos reais – até então as peças eram expostas apenas em cabides.

Revolucionário da moda, em 1868, Worth junto de outros artesãos criaram o primeiro sindicato de costureiros, a Câmara Sindical da Costura, Fabricantes de Roupas e Alfaiates para Mulheres. Alguns anos mais tarde, lá em 1910, o costureiro Paul Poiret (que anteriormente fez parte da Casa Worth) decidiu fundar um sindicato separado do sindicato geral, a Câmara Sindical da Costura Parisiense. Por volta de 1926 surgiu a École de la Chambre, onde era possível aprender as técnicas manuais. 

 

Na década de 1940, o mundo viveu a fase sombria da Segunda Guerra Mundial. Ao longo da ocupação nazista na França, Hitler pretendia levar a sede da Câmara Sindical para Berlim, entretanto, o então presidente Lucien Lelong criou as regras da Alta-Costura, a fim de proteger o patrimônio francês dos ditadores nazistas. O principal requisito era que só poderia existir Alta-Costura em Paris.

E finalmente em 1945 temos a Chambre Syndicale de La Haute Couture, (Câmara Sindical da Alta-Costura), atualmente chamada de Fédération de la Haute Couture et de la Moda (FHCM) – Sindicato da Alta-Costura. A associação garante até hoje que todos os filiados sejam denominados costureiros e não estilistas. Na França, o costureiro é o status profissional mais alto da moda e o estilista é aquele que faz produção em série para a indústria. 

Critérios e categorias

Lembrando que Alta-Costura é um Patrimônio Cultural Francês, juridicamente protegido e patenteado. Para fazer parte, o costureiro deve ser convidado pela Fédération de la Haute Couture et de la Mode (Sindicato da Alta-Costura – cuja sede está situada em Paris) e seguir algumas regrinhas. Além disso, existem 3 categorias de membros, ou seja, 3 grupos e cada grupo tem determinadas especificações. 

Membro permanente ou membro aderente: 

Todas as regras abaixo são obrigatórias para a categoria MEMBRO PERMANENTE/ADERENTE as quais fazem parte 16 maisons: Adeline André, Alexandre Vauthier, Alexis Mabille, Bouchra Jarrar, Chanel, Christian Dior, Franck Sorbier, Giambattista Valli, Givenchy, Jean Paul Gaultier, Julien Fournié, Maison Margiela, Maison Rabih Kayrouz, Maurizio Galante, Schiaparelli e Stéphane Rolland

  • Ter em sede em Paris, em um prédio de pelo menos 5 andares entre as avenidas Champs-Élysées, Marceau e Montaigne, conhecido como Triangle d’Or (Triângulo de Ouro); 
  • Peças feitas 100% à mão. O processo é inteiramente artesanal sem o uso de máquinas e com materiais de altíssima qualidade. Os Modelos únicos, feitos sob medida; 
  • Necessário apresentar 2 coleções anuais com no mínimo 35 modelos – looks dia e looks noite; 
  • Um ateliê precisa ter pelo menos 15 funcionários trabalhando em tempo integral e 20 técnicos em uma das oficinas; 
  • Todas as maisons precisam ter ao menos 1 rótulo de perfume e linha de acessórios e sapatos no prêt-à-porter.

Membro correspondente:

Em outros países existem Câmaras correspondentes à Câmara Sindical da Alta-Costura de Paris, é o caso da Altamoda, na Itália, baseada na realidade francesa e que corresponde à Alta-Costura. Em outras palavras, o membro correspondente é aquele que apresenta e comercializa suas coleções em seu país de origem. É a representação da-Alta Costura francesa no cenário internacional. A Maison Valentino é um exemplo que representa Alta-Moda em Paris e Alta-Costura na Itália. Além da Valentino, fazem parte dos membros correspondentes a Maison Alaïa, Atelier Versace, Elie Saab, Fendi Couture, Giorgio Armani Privé, Iris Van Herpen, Ulyana Sergeenko e Viktor & Rolf.

 

Membro convidado:

A designação foi criada em 1997 e as regras dessa categoria são bem mais simples. A Câmara Sindical decide que determinado costureiro está fazendo um trabalho notável, então pode convidá-lo para se apresentar, mas com a autorização de todas as casas permanentes. Atualmente alguns membros que fazem parte da lista dos convidados são Aelis, Azzaro Couture, Christophe Josse, Charles De Vilmorin, Georges Hobeika, Imane Ayissi, Julie de Libran, Pyer Moss Couture, Rahul Mishra, Ralph Rucci, RVDK (Ronald Van Der Kemp), Vaishali S, Yuima Nakazato, Zuhair Murad.

 

A importância

Criada há mais de um século, com critérios e padrões organizacionais, a Alta-Costura é sobre liberdade e sobre as inúmeras possibilidades de expressar momentos e mudanças da sociedade através da arte. É a criação de um universo mágico, mas que sempre traz uma mensagem em seu manifesto. Além disso, sua adaptabilidade aos novos tempos abre espaço para um mercado que busca desenvolver criatividade e inovação em conjunto de novos materiais que possibilitam melhores caminhos para a Alta- Costura sem perder a tradição.

Consumidores & preços

Estima-se que existem 4 mil consumidores de Alta-Costura, sendo 200 regulares, e grande parte desses números são mulheres. O nicho é considerado colecionador, afinal, Couture é obra de arte e somente colecionadores e colecionadoras consomem tais obras, as quais os valores podem variar entre € 9.000 a € 1 milhão.

Curiosidades

  • Um vestido de noiva Couture da Dior feito sob medida pode custar cerca de € 850 mil.
  • Grande parte das compradoras e compradores da Giambattista Valli tem entre 28 e 38 anos.
  • Casas como Chanel e Dior possuem 35% das compradoras e compradores com menos de 40 anos.
  • Em média, são necessárias 1000 horas para criar uma peça que envolva bordados e outros ornamentos.
Site | + posts

Jornalista de Moda e Pós Graduanda em Negócios de Moda.
Sempre em busca de novas tendências.